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Outubro. 2025

 
 
 

O UNIVERSO AO MEU REDOR, POR CAMI CILENTO

 
 

Texto originalmente publicado no Pick My Brain, uma janela do universo da Cami Cilento.

 
 

Recentemente tenho refletido muito sobre a experiência de compra e sobre o relacionamento que tenho com determinadas marcas e designers. Muito eu escrevi sobre o consumo nos meses recentes e sobre querer ter uma relação sadia com o meu consumo e com o meu bolso. O que era no entanto para ser uma análise do que estava trazendo para dentro da minha vida e de quais eram os gatilhos que me faziam consumir sem propósito, me levaram a uma reflexão ainda mais profunda sobre o universo de compra. Explico… Silenciar o ruído das compras sem sentido de marcas que não necessariamente admiro ou de coisas inúteis que não adicionam nenhum valor na minha vida foi relativamente simples, a parte mais interessante desse processo no entanto foi analisar o que me leva ao outro lado do espectro: as marcas que fazem o meu coração até pular uma batida, que tem o poder de comandar a minha atenção quando eu menos espero.

 

 

Eu comentei no meu Instagram mês passado sobre como acho extremante interessante quando uma marca ou designer nos convida para entrar em seu universo criativo. Em um mundo no que mal precisamos sair de casa para consumir, é um desafio comercial para cada marca determinar o seu universo sem que esse seja um local físico. É interessante pois quanto mais eu consumo via a internet, mais admiro aqueles que virtualmente tem esse poder de nos fazer viajar entre as suas ideias sem que a gente saia de dentro de casa. Eu sigo cada vez mais atenta em relação a isso pois sinto que esse aspecto nos aproxima das marcas e nos levam a um estágio de admiração pelo trabalho e pela criação que faz o consumo daquela ideia fazer mais sentido.

 

 

Uma das razões pelas quais chamei a Marina Schaffa para colaborar nesse texto é justamente porque acho que ela é uma designer que está fazendo esse trabalho lindamente. Eu vejo o seu universo nos traços de suas peças, mas também os vejo quando ando pelas ruas de Nova Iorque e São Paulo, dois lugares que estão no “core” criativo da designer. E ao longo do meu dia, revisito as suas idéias inconscientemente: o seu conteúdo vai além dos limites físicos das suas peças e virtuais de suas mídias. Eu acompanho a marca pelo Instagram e via o seu newsletter, o MS Journal, e consigo entender claramente como todas essas ideias se juntam e dão vida às peças. É quase como se todos fôssemos convidados a navegar por entre os neurônios da Marina, que é sim uma daquelas mentes super inquietas e inspiradoras. E é justamente porque admiro as suas ideias que acabo admirando as suas peças e assim temos um ciclo virtuoso que vai além do meu consumo.

Ao entrar no universo de uma marca eu consigo entender se faço parte dele, ou até melhor, se me vejo como parte dele. Mais do que pertencer no seu universo, quero me sentir como parte dele. Ontem assisti ao filme curta metragem produzido pela Gucci para apresentar o seu novo designer, o Demna. Dirigido pelos diretores Spike Jonze e Halina Reijn, o filme é um convite para entrar no universo da marca: ao assistí-lo vejo não só os traços do Demna como também de todo o legado criativo dos designers passados. Se você consumiu a marca ao longo dos últimos anos, certamente identificou os elementos que fazem do filme uma expressão da Gucci. E por consumir não digo passar o cartão de crédito, me refiro na realidade ao consumo do universo criativo dessa marca. Achei interessantíssimo um trecho em que um dos personagens fala a seguinte frase (em tradução livre):

 

“Não é estranho que você só consegue se ver de dentro para fora, mas todo mundo só te vê pelo exterior? Eu digo, a forma como você vê a si mesmo pode ser completamente diferente da percepção dos outros e você nunca saberá. Isso é assustador.”

 
 
 

Achei tão interessante essa reflexão e explico o porquê. Muito eu escrevi sobre a minha busca pelo meu estilo pessoal e essa busca veio justamente da conclusão que queira eu ou não a nossa imagem é a primeira coisa que atinge o mundo exterior, mas o que aprendi ao longo do processo é que esta mesma imagem atinge primeiro o meu interior. Mais importante que a percepção alheia é a percepção interna: para que uma peça faça sentido ela tem que antes de tudo estar alinhada com a minha essência pessoal. Eu preciso me sentir bem comigo mesma antes de tudo, se isso não acontece muito provavelmente a peça vai ficar ali esquecida no fundo da gaveta. Você deve estar pensando, mas o que tudo isso tem a ver com o universo de idéias? Essa conexão entre a minha essência e as idéias que eu estou consumindo é um dos elementos que comandam a minha atenção. Sentir parte do universo de uma marca é então um fator importantíssimo na minha relação com o meu consumo. A tangibilidade do que entra no meu closet tem que ir além e tocar o meu universo interno, que é por sua vez intangível. Profundo, não é mesmo?

 

 

Foi-se o tempo que para consumir precisávamos estar na presença da peça, então as marcas ficaram com a missão de te transportar virtualmente até o seu universo para que você pudesse consumir a sua idéia antes mesmo de colocar as mãos sobre seus produtos. E esse não é um desafio qualquer. Chuta um produto que desde os primórdios do “e-commerce” sofre para manter a sua relevância? Os perfumes. Tem coisa mais difícil que vender perfume via as mídias sociais? Como fazer você sentir o perfume via a tela do seu celular e criar o desejo de compra? Eu tenho acompanhado uma marca de perfumaria artesanal extremamente interessante, a Ffern. Todo o seu conceito me atrai: estoque limitado, com ingredientes orgânicos e naturais, uma produção independente e artesanal. Mas ao ler essa mensagem do que a marca se propõe na sua bio do IG não foi o suficiente para me fazer comprar o perfume. A marca, no entanto, assim como a Marina tem este dom de nos levar ao seu universo por meio do seu conteúdo virtual: sinto o perfume sem estar na presença do produto. O perfume tem um poder único, tem vezes que a pessoa nem chegou ao ambiente, mas o seu perfume já está ali. Que radical pensar que via o seu conteúdo interessantíssimo o perfume da Ffern segue tendo esse poder: entra na sua vida sem necessariamente estar no ambiente.

 

ffern.co

 

Voltando ao universo da Marina Schaffa, nem sei quantas vezes já me peguei suspirando na presença das suas idéias, e essa relação vai além da materialidade das suas peças. Ela tem esse poder de nos inebriar com o seu universo criativo. Toda vez que eu tenho a chance de estar na presença das suas peças sinto que já tenho um relacionamento estabelecido com a idéia conceitual de cada uma. Ainda assim há uma lacuna entre o meu mundo virtual e o meu mundo real que só pode ser preenchida ao vivo e à cores: ao manusear as peças sinto que finalmente entendo a complexidade do design que já havia visitado no campo das idéias. Essa é a grande beleza de quando uma marca consegue extrapolar os limites tangíveis do mundo físico unindo ele ao o campo intangível das idéias.

 

 

Eu vejo o design de cubos da Marina Schaffa quando visito a Neue Gallerie aqui em Nova Iorque e tenho o privilégio de admirar o trabalho único do Klimt no seu retrato da “Adele Bloch-Bauer I”. É curioso, eu nunca falei sobre o quadro com a Marina, mas sempre me lembro dele quando uso os meus cubos. A isso que me refiro quando digo que as idéias criativas da designer moram sem pagar aluguel dentro da minha mente. É a mesma coisa que sinto quando vejo a fachada do Sesc Pompéia em São Paulo, a imagem também sempre me remete ao design da mesma coleção dos cubos. Sem mesmo sair de casa, cá estou eu sonhando com duas instituições culturais que amo ao mesmo tempo que bato o olho na lapela do meu blazer e vejo o meu “Alfinete Cubo”. São conexões que vão além da tangibilidade de suas jóias.

 

 

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Enviado por Marina Schaffa
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