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MS Journal #21  :  Novembro 2025

 
 
 

O TATO É A NOSSA PRIMEIRA MEMÓRIA

 
Anel Gap
 

Em uma época dominada pelo olhar — saturada de telas, imagens e pixels — esquecemos que o mundo começa pelo toque.

 

 

Antes de interpretar, sentimos. Antes de entender, encostamos.

 

 

O tato é a nossa primeira memória.

 

 

Filósofos como Merleau-Ponty já diziam que o corpo não é apenas um objeto no mundo, mas o meio pelo qual o mundo se torna real para nós.

 

 

E é pelo tato — esse sentido pré-verbal, silencioso e teimosamente presente — que a realidade se aproxima e se deixa perceber.

 

 

O toque é o que revela peso, resistência, temperatura.

 

 

É ele que registra pressão, textura, proximidade.

 

 

Não sentimos apenas superfícies: sentimos forças, presenças, histórias.

 
East-West/West-East, Richard Serra - Deserto do Qatar
 
 

Assim como na nova coleção Relevo, o tato é sempre encontro entre forças.

 

 

É o gesto que marca a matéria, é o amassado que revela forma, é o que se destaca depois da pressão — uma espécie de geografia íntima entre mão e metal.

 

 

O relevo é o traço deixado pelo contato.

 

 

Bachelard dizia que a matéria acolhe a imaginação, que o toque desperta memórias antigas — como quem reencontra uma sensação que não sabia que lembrava.

 

 

A coleção nasce desse lugar: do tátil que desperta, do imperfeito que acolhe, do amassado que revela.

 
 
 
 

Ciência sensorial


O tato é o primeiro dos sentidos a se desenvolver. Pesquisas indicam que já nas semanas iniciais de gestação as vias neurais do toque se formam, e que essa experiência tátil precoce molda a forma como nos percepcionamos e percebemos o mundo.

 

O sentido do toque vai além daquilo que sentimos conscientemente. Um novo estudo mostrou que seres humanos podem detectar objetos enterrados na areia antes de tocá-los fisicamente — por meio de pequenas perturbações mecânicas transmitidas ao dedo. Isso revela: o tato não é só “o que encosto”, mas também “o que sinto chegando”.

 

A textura e a sensorialidade aflora a nossa conexão emocional com o objeto. Uma revisão integrativa concluiu que a função do sistema tátil humano inclui não apenas discriminar objetos, mas comunicar de forma não-verbal (toque entre pessoas, ambiente, objetos) e ajudar no reconhecimento do ambiente. 

 
 
 

Há artistas que nos lembram de algo mais profundo — aquilo que só o tato é capaz de revelar. 

 
 
 

Elana Herzog, trabalha com tecidos e materiais reaproveitados, que ela rasga, grampeia e tensiona até revelar o que há de mais humano: a marca do tempo, o esforço, o desgaste. Suas superfícies carregam o gesto como cicatriz — o toque visível na fibra, a memória que se imprime na matéria.

 
 
 

Ranjani Shettar cria esculturas e instalações que parecem suspensas entre o orgânico e o etéreo. Madeira, cera e pigmentos naturais ganham forma através do toque, do dobrar, do esculpir. Suas obras revelam a delicadeza do gesto artesanal, o momento em que a matéria responde à mão, e o toque se torna arte.

 
 
 

Solange Pessoa transforma materiais como terra, couro e cera em esculturas que evocam o relevo do Brasil — morros, montanhas, curvas. Sua arte é profundamente tátil: convida o olhar a imaginar o peso, a textura, a densidade. É o corpo da natureza traduzido em forma, onde cada dobra é um vestígio de vida.

 
 

 Vem aí, Relevo.

25.11 em marinaschaffa.com.br

 
 

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Enviado por Marina Schaffa
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