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MS Journal #30  :  Março 2026

 
 

Burle Marx: a forma como identidade

 

Há criadores que pensam pequeno, outros pensam grande.
Roberto Burle Marx pensava em sistema: forma, ritmo e composição, independentemente da escala.

 

  

Seus projetos nunca foram “paisagismo” no sentido decorativo. Eram construção visual. Ritmo. Cor. Escala. Controle. Ele não adicionava natureza ao espaço. Ele organizava a natureza como composição.

 

O gesto da curva

 
Anel Gap
 

O calçadão de Copacabana virou ícone porque é simples e radical ao mesmo tempo: um padrão gráfico que transforma o chão em identidade visual.

 

  

Ondas em preto e branco. Ritmo. Repetição. Movimento. Não é ornamentação, é desenho.

 

  

A curva em Burle Marx nunca é gratuita. Ela direciona o fluxo, cria tensão e organiza o olhar. Parece espontânea, mas é cálculo puro. Esse equilíbrio entre organicidade e controle se tornou uma das marcas do modernismo brasileiro.

 

Modernismo tropical: identidade como construção

 

Burle Marx rompeu com a ideia de que sofisticação significava copiar a Europa.

  

 

Enquanto muitos jardins da elite brasileira reproduziam modelos franceses, ele colocava bromélias, helicônias e palmeiras nativas no centro da composição.

 

 

 Não era sobre exotismo. Era sobre identidade. 

 

  

Ao lado de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, ajudou a consolidar um modernismo que não copiava, reinterpretava o território.

 

 

O Brasil deixava de ser cenário e passava a ser linguagem.

 

Escala e intimidade

 

Ele desenhava parques inteiros, mas o impacto está no detalhe: na textura da folha, na sobreposição de verdes, no contraste entre sombra e luz.

 

  

Burle Marx entendia que a experiência é construída em camadas.

Primeiro o gesto amplo, depois o acabamento.

 

  

A força precisa funcionar à distância. O refinamento acontece de perto. Escala e intimidade não competem, se complementam.

 
Anel Gap

A entrada principal da exposição do Jardim Botânico de Nova York, “Modernismo Brasileiro: A Arte Viva de Roberto Burle Marx” (2019)  © Brittainy Newman/The New York Times

 

Modernismo também se usa

 

Roberto Burle Marx nunca foi apenas paisagista. Seu trabalho atravessou pintura, escultura, figurino, cenografia, e também joalheria. A lógica era a mesma, só mudava a escala.

 

  

Em 2016, a Mahnaz Collection, em colaboração com a Wright, apresentou a exposição “Forma Livre: The Jewelry of Brazil’s Burle Marx Brothers”, reunindo peças de Roberto e de seu irmão Haroldo Burle Marx. Dois nomes centrais do modernismo brasileiro, atuando em campos diferentes, mas guiados por um pensamento formal muito parecido.

 

  

Se Roberto organizava paisagens, Haroldo organizava matéria. E o que eles fizeram na joalheria foi tão radical quanto os jardins.

 
Bracelete Elos
 

A partir dos anos 1940, enquanto o mercado internacional ainda valorizava simetria e ornamentação clássica, os irmãos exploravam outra direção: liberdade estrutural, a chamada forma livre.

 

  

As gemas brasileiras eram lapidadas respeitando suas características naturais. Nada de forçar a pedra a caber em um molde clássico. Os cortes exploravam irregularidades, volumes orgânicos e assimetrias precisas. O ouro,  muitas vezes em diferentes tonalidades de amarelo, deixava de ser apenas suporte e passava a participar da composição.

 

  

Havia contraste, cor, tensão. Quase como uma pintura construída em metal e pedra.

 

  

O resultado foi uma joalheria menos ornamental e mais autoral — conectada à matéria-prima brasileira e menos dependente de códigos europeus.

 

Legado

 

Burle Marx antecipou debates que hoje dominam arquitetura e design: uso de espécies nativas, sustentabilidade, integração entre arte e espaço público.

  

 

Mas, acima de tudo, consolidou uma ideia simples e poderosa: paisagem é projeto.

 

  

Revisitar os Burle Marx é entender como o modernismo brasileiro construiu uma linguagem que ainda soa atual.

 

  

Forma livre não era improviso, era método.

 

  

E talvez esse seja o maior legado dos irmãos: a modernidade não está na tendência, mas na coragem de reorganizar a matéria com autonomia.

 

“Um jardim é como um poema ou como música: deve ser uma construção.”

 
Anel Gap

Artespacio. Para Burle Marx, um jardim “é como um poema ou como música: deve ser uma construção. É preciso saber os momentos certos em que se está expressando algo, para dramatizar um ponto”. 

 
 

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Enviado por Marina Schaffa
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