MS Journal #31 : Março 2026 |
|
|
|
Em um cotidiano cada vez mais absorvido por telas, notificações e feeds intermináveis, cresce o desejo por experiências mais físicas e pessoais. |
Houve um tempo em que a tecnologia prometia libertar o tempo.
Automatizar tarefas. Acelerar processos. Eliminar fricções.
E, por um tempo, parecia funcionar.
Hoje, porém, o mundo digital alcançou um ponto curioso: ele se tornou tão presente, tão constante, que o gesto mais desejável começa a ser justamente o oposto: desligar.
Não completamente, mas o suficiente para lembrar que a vida acontece também fora das telas.
Esse movimento ganhou um nome simples: going analogue.
|
Há algo revelador no reaparecimento de objetos que são ultrapassados. O iPod, por exemplo, ressurgiu como símbolo de uma era em que ouvir música era uma experiência mais intencional: baixar álbuns, organizar playlists, colocar fones e simplesmente caminhar. Sem notificações. Sem feeds.
|
A mesma lógica explica o fascínio recente pelos chamados dumb phones. Celulares que fazem menos. Em um mundo projetado para fazer cada vez mais, a simplicidade passa a ter um valor inesperado.
Esse desejo por experiências analógicas também começa a moldar novas formas de viagem e descanso.
Segundo uma reportagem do Wall Street Journal, craft retreats — retiros dedicados a atividades manuais como cerâmica, bordado, tecelagem ou marcenaria — estão se tornando uma resposta inesperada ao burnout digital.
Durante alguns dias, participantes trocam laptops e notificações por ferramentas simples: barro, agulhas, madeira e tinta. Mais do que aprender uma técnica, esses encontros oferecem algo raro no cotidiano contemporâneo: tempo para fazer algo com as próprias mãos.
|
© Lotta Jansdotter (segunda da direita) e convidados trabalham em gravuras ao ar livre em uma ilha na Finlândia. / Jenny Hallengren; Maria Rosenlöf |
A estética do tempo lento |
O analógico também retorna através de pequenos rituais cotidianos.
Cartas escritas à mão (snail mail) reaparecem entre jovens que redescobrem o prazer de enviar e receber correspondência física. Envelopes decorados, selos escolhidos com cuidado, páginas dobradas.
|
Há algo profundamente humano em esperar dias por uma resposta.
Ao mesmo tempo, surgem gestos quase simbólicos, como a chamada stop-scrolling bag — uma bolsa pensada para substituir o impulso automático de abrir o celular.
|
© Getty Images; Rebecca Zisser/BI |
Dentro dela: um caderno, tintas aquarela, um livro de palavras cruzadas.
Ferramentas simples para uma atividade que já foi natural: ocupar o tempo sem distrações digitais.
|
Esse movimento também se manifesta no espaço físico.
Cafés, livrarias, bibliotecas e parques — os chamados third spaces — voltam a ganhar relevância cultural.
Eles oferecem algo que nenhuma plataforma digital consegue replicar completamente: a experiência de compartilhar tempo e espaço.
Uma conversa longa em uma mesa de café. Um livro aberto em uma tarde silenciosa. Um jogo de xadrez em um parque.
São momentos pequenos, mas cada vez mais raros.
|
Talvez o analógico represente uma nova forma de luxo contemporâneo. Não um luxo tecnológico, mas um luxo de presença. Traduzido em tempo sem distrações, conversas sem interrupções e experiências que não podem ser aceleradas.
Em um mundo digital, o analógico se torna um lembrete simples: nem tudo precisa ser instantâneo.
|
Transforme em algo novo aquilo que você não usa mais.
O processo é fácil, sem taxas e você pode iniciar a qualquer momento.
|
|
|
|