MS Journal #36: Junho 2026 |
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Viajar é, cada vez mais, chegar ao mesmo lugar |
Existe uma crença de que viajar transforma, e ela não está errada. O contato com o desconhecido pode mesmo desafiar certezas, dissolver preconceitos, expandir quem somos. Encontrar mundos com outros valores, outras formas de viver, outras respostas para as mesmas perguntas: isso abre a nossa mente. Mark Twain disse isso. Incontáveis Instagram bios repetiriam, mais tarde, em versões menos elegantes.
O problema não é a viagem. É o que estamos fazendo com ela.
A filósofa Agnes Callard tem uma versão mais incômoda. Viajar, ela escreve, é um boomerangue: a experiência te devolve exatamente de onde você partiu. Levamos conosco os mesmos gostos, os mesmos medos, a mesma régua para medir o que é bom ou ruim. O que muda é o fundo da foto.
"O turista já sabe, antes de partir, o que será quando voltar." Agnes Callard, The New Yorker
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Tem algo nisso que bate, não porque a tese seja pessimista, mas porque ela é honesta sobre uma confusão muito comum: a de que deslocamento físico equivale a deslocamento interno. Atravessar um oceano não é o mesmo que atravessar uma perspectiva.
Hegel tinha um nome para esse movimento de sair de si e voltar transformado: Aufhebung, a superação que preserva. A ideia era que o confronto com o outro, com o que nos é estranho, nos força a rever o que achávamos que sabíamos sobre nós mesmos. Viajar, em teoria, deveria funcionar assim. O problema é que o turismo contemporâneo foi projetado para evitar exatamente esse desconforto.
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Caspar David Friedrich - O Peregrino acima do Mar de Névoa (1818) |
Sartre diria que estamos em má-fé. Escolhemos destinos que confirmam a identidade que já temos: o viajante "autêntico" que vai para o Japão rural, o cosmopolita que coleciona cidades europeias, o aventureiro que posta trilhas na Patagônia. Cada viagem é menos uma abertura ao desconhecido e mais uma encenação de quem já decidimos ser. A liberdade está ali, formal, ninguém nos obrigou a ir, mas o roteiro, esse, já estava escrito.
E antes, não era assim. Sem vídeo, sem o feed de um zilhão de pessoas que já foram, o elemento surpresa ainda existia. O roteiro era criado com matérias de revista, guias, relatos, anotações em diários, fotos reveladas depois, memórias contadas de viva voz. A viagem era, em boa parte, o que você construía no caminho.
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A experiência como antecipação |
Walter Benjamin distinguia a Erfahrung, experiência profunda, que deixa marca, que muda quem você é, da Erlebnis, o vivido superficial, o evento que passa sem penetrar. O turismo algorítmico opera quase inteiramente no registro da Erlebnis: muita estimulação, pouca transformação. Voltamos com fotos, não com perguntas.
E o turismo contemporâneo foi muito bem projetado para manter essa ilusão viva. O destino é sugerido pelo algoritmo. O roteiro é produzido por influenciadores. A Igreja de Santo Inácio de Loyola, em Roma, uma jóia barroca do século XVII com afrescos sublimes, hoje tem fila de uma hora por causa de um espelho estrategicamente posicionado para selfies. As pessoas esperam, pagam, fotografam, vão embora, os afrescos no teto, raramente olhados.
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Isso não é turismo como fuga, é turismo como extensão do cotidiano, o que Guy Debord chamaria de espetáculo: a vida não vivida, apenas representada. Mesmos hábitos, mesma lógica de performance, só que com geotag diferente.
A questão, então, não é se vale a pena viajar. Claro que vale: para se aventurar, descansar, criar memórias com quem amamos, para conhecer outras culturas. Cada viagem tem o seu propósito, e nenhum é menor que o outro. O que vale se perguntar é se estamos deixando espaço para sermos surpreendidos.
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Indicações para viajantes que querem sair do piloto automático |
Três irmãos atravessam a Índia tentando encontrar algo extraordinário, mas acabam esbarrando principalmente em si mesmos. Uma lembrança de que viajar também pode servir para reparar vínculos, criar intimidade e voltar a olhar para quem está ao nosso lado. |
Um clássico sobre a distância entre a viagem imaginada e a viagem vivida. O autor explora uma ideia desconfortável: muitas vezes não enxergamos os lugares, apenas as expectativas que projetamos sobre eles. |
Num momento em que quase todos seguem os mesmos vídeos, listas e algoritmos, o guia impresso ainda preserva algo raro: a possibilidade de fazer descobertas que não foram previamente validadas pela internet. |
A editora britânica produz mapas temáticos que parecem ir na direção oposta da lógica algorítmica. Em vez de otimizar trajetos ou indicar os lugares mais populares, eles propõem percursos guiados por livrarias, jardins escondidos, histórias literárias e curiosidades locais. É uma forma de devolver à viagem algo que os aplicativos tornaram cada vez mais raro: a possibilidade de errar o caminho, mudar de ideia e encontrar algo que você não estava procurando.
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Referências
Agnes Callard, "The Case Against Travel" — The New Yorker, 2023
Walter Benjamin, "Experiência e pobreza" — 1933 Guy Debord, "A sociedade do espetáculo" — 1967 Mariana Aldrigui, "Viajar é, cada vez menos, um ato de liberdade" — Piauí, abr. 2026 UNWTO: 1,5 bilhão de chegadas internacionais em 2025
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