MS Journal #38: Julho 2026 |
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Talvez um acervo seja uma das formas mais discretas de contar uma vida.
Não falamos apenas de coleções, mas de tudo aquilo que vai se acumulando ao longo do tempo. Livros comprados em diferentes cidades, fotografias impressas, uma receita escrita à mão, um vaso encontrado em uma viagem, uma cadeira herdada, discos, obras de arte, cartas, joias. Objetos que, isoladamente, podem parecer comuns, mas que, juntos, revelam uma narrativa.
O curioso é que quase ninguém decide criar um acervo. Ele surge naturalmente, construído pelas escolhas que fazemos, pelos presentes que recebemos, pelas lembranças que resolvemos preservar. Só muitos anos depois percebemos que aquele conjunto conta uma história muito mais precisa do que qualquer autobiografia.
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Susan Sontag e a memória material
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Em Sobre Fotografia, Susan Sontag escreve que colecionar fotografias é colecionar o mundo. A frase fala sobre imagens, mas poderia ser estendida a tantos outros objetos que escolhemos guardar. Fotografar é uma forma de dizer "isso merece permanecer". O mesmo acontece quando compramos um livro durante uma viagem, herdamos um móvel de família ou escolhemos uma joia para marcar um momento importante.
Para Sontag, os objetos não apenas registram a experiência. Eles passam a fazer parte dela. Ao longo dos anos, deixam de representar apenas um acontecimento específico e se tornam atalhos para lembranças, afetos e versões anteriores de nós mesmos.
Talvez seja por isso que um acervo nunca seja apenas uma soma de coisas. É uma forma de construir memória.
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Maira Kalman e a poesia do cotidiano
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“Dog on Green Chair,” 2023. Maira Kalman e Mary Ryan Gallery |
Se Susan Sontag nos ajuda a pensar por que guardamos, Maira Kalman mostra como aprendemos a olhar.
Em seus livros e ilustrações, a artista americana dedica a mesma atenção a uma cadeira, um casaco, uma bolsa antiga ou uma mesa de cozinha que muitos reservam às grandes obras de arte. Seus objetos nunca aparecem como cenografia. São personagens. Carregam marcas do tempo, pequenas imperfeições e histórias que continuam vivas porque alguém decidiu preservá-las.
Existe uma delicadeza na maneira como Kalman observa o mundo. Ela parece lembrar, o tempo todo, que aquilo que escolhemos viver ao lado acaba nos transformando também.
Talvez um acervo pessoal seja exatamente isso. Não um conjunto de objetos extraordinários, mas um conjunto de objetos que se tornaram extraordinários porque permaneceram conosco.
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Essa perspectiva muda a forma como escolhemos aquilo que permanece. Em vez de perguntar se um objeto acompanha uma tendência, começamos a pensar se ele ainda fará sentido daqui a dez, vinte ou trinta anos.
Uma biblioteca é construída livro a livro. Uma coleção de arte nasce obra após obra. Um álbum de fotografias reúne décadas em poucas páginas. O mesmo acontece com as joias.
As peças que realmente permanecem são as que atravessam diferentes fases da vida, acompanham mudanças, recebem novas combinações e, com o tempo, passam a fazer parte da identidade de quem as usa.
No fim, um acervo pessoal é uma coleção de escolhas que continuam fazendo sentido mesmo quando o tempo passa.
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