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MS Journal #39: Julho 2026

 
 

O que Virginia Woolf nos ensina sobre o extraordinário em um dia comum

 
 

 

 Recentemente, reunimos um grupo de mulheres para discutir Mrs Dalloway, de Virginia Woolf. Como acontece com as boas discussões literárias, terminamos a noite falando muito sobre o enredo do livro e ainda mais sobre tudo aquilo que ele desperta.

 

Foi impossível não seguir pensando em Virginia Woolf por dias.

Não apenas pela escritora extraordinária que foi, mas pela mulher que decidiu viver de uma forma incomum para sua época.

 

 

Muito além dos romances

 

Créditos: Victoria and Albert Museum London

Nascida em Londres, em 1882, Virginia Woolf fez parte do Grupo de Bloomsbury, um círculo de artistas, escritores e intelectuais que questionava praticamente todas as convenções da sociedade inglesa.

 

Enquanto muitas mulheres ainda eram educadas para ocupar apenas o espaço doméstico, ela escrevia, publicava, defendia a independência financeira feminina e insistia que as mulheres precisavam de tempo, liberdade e um espaço próprio para produzir arte. Décadas antes de muitas dessas discussões ganharem força, ela já perguntava por que tantas histórias femininas nunca haviam sido contadas.

 

Talvez seja por isso que continue parecendo tão contemporânea. Virginia Woolf não escrevia apenas sobre mulheres. Escrevia sobre consciência, tempo, memória, desejo e identidade. Sobre aquilo que continua nos atravessando.

 

Um romance sobre a potência de um dia comum

 
Anel Gap
 

Quando Mrs Dalloway foi publicado, em 1925, seu caráter experimental chamou a atenção da crítica.

Afinal, por que dedicar um romance inteiro a um único dia na vida de uma mulher que está organizando uma festa?

Hoje, talvez essa seja justamente a sua maior força.

Virginia Woolf parte da ideia de que nenhuma vida é feita apenas de grandes acontecimentos. Enquanto Clarissa compra flores, cruza com conhecidos ou caminha por Londres, acompanhamos tudo o que passa por seus pensamentos. As lembranças, as dúvidas, os arrependimentos, os afetos, as possibilidades que nunca se realizaram, além das impressões do momento. E como se não bastasse reflexões dela, a autora ainda consegue genialmente passar para outros personagens e suas reflexões também, sem que nada seja dito, apenas pensamentos. 

 

A princípio, o fluxo de consciência pode parecer desorientador. Em momentos parece que não estamos entendendo o livro. Mas, se deixarmos fluir, sem nos apegarmos ao lógico a todo momento, percebemos que a narrativa apenas segue a consciência humana. 

 

Pensamos exatamente assim. Uma rua desperta uma lembrança. Um cheiro nos leva vinte anos para trás. Encontramos alguém e, antes mesmo de responder “oi”, nossa cabeça já percorreu uma sequência inteira de pensamentos.

 

Virginia Woolf conseguiu colocar essa experiência no papel de uma forma impressionante. Mais de cem anos depois, ela ainda parece descrever a maneira como pensamos.

 

E essa é apenas uma das surpresas que a autora apresenta em sua obra. Vidas inteiras podem estar escondidas em um dia aparentemente comum.

 

Para continuar refletindo

Se este journal e Mrs Dalloway despertaram em você a vontade de mergulhar neste tipo de leitura, também recomendamos:

Clarice Lispector: Felicidade Clandestina. Uma ótima porta de entrada para Clarice. Nos contos, ela mostra como os acontecimentos mais simples podem carregar emoções imensas — uma sensibilidade que conversa diretamente com Mrs. Dalloway.

Annie Ernaux: Em livros como Os Anos e O Acontecimento, mostra como a memória individual também conta a história de uma época.

Rachel Cusk: A trilogia Esboço desafia a ideia tradicional de romance e observa as pessoas com uma atenção quase cirúrgica.

 
 

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Enviado por Marina Schaffa
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