Quando Mrs Dalloway foi publicado, em 1925, seu caráter experimental chamou a atenção da crítica.
Afinal, por que dedicar um romance inteiro a um único dia na vida de uma mulher que está organizando uma festa?
Hoje, talvez essa seja justamente a sua maior força.
Virginia Woolf parte da ideia de que nenhuma vida é feita apenas de grandes acontecimentos. Enquanto Clarissa compra flores, cruza com conhecidos ou caminha por Londres, acompanhamos tudo o que passa por seus pensamentos. As lembranças, as dúvidas, os arrependimentos, os afetos, as possibilidades que nunca se realizaram, além das impressões do momento. E como se não bastasse reflexões dela, a autora ainda consegue genialmente passar para outros personagens e suas reflexões também, sem que nada seja dito, apenas pensamentos.
A princípio, o fluxo de consciência pode parecer desorientador. Em momentos parece que não estamos entendendo o livro. Mas, se deixarmos fluir, sem nos apegarmos ao lógico a todo momento, percebemos que a narrativa apenas segue a consciência humana.
Pensamos exatamente assim. Uma rua desperta uma lembrança. Um cheiro nos leva vinte anos para trás. Encontramos alguém e, antes mesmo de responder “oi”, nossa cabeça já percorreu uma sequência inteira de pensamentos.
Virginia Woolf conseguiu colocar essa experiência no papel de uma forma impressionante. Mais de cem anos depois, ela ainda parece descrever a maneira como pensamos.
E essa é apenas uma das surpresas que a autora apresenta em sua obra. Vidas inteiras podem estar escondidas em um dia aparentemente comum.