MS Journal #40: Agosto 2026 |
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Quando pensamos em design, geralmente analisamos o resultado final. Pouco se fala sobre o caminho que levou até ele. E, muitas vezes, é justamente ali que está o mais interessante. |
Braun SK4, 1956 - Dieter Rams para Braun |
O caixão da Branca de Neve |
Em 1956, um dos objetos mais importantes da história do design ganhou um apelido bastante improvável. A imprensa alemã passou a chamar o novo toca-discos da Braun de "o caixão da Branca de Neve".
O motivo era simples: até então, aparelhos de som eram desenhados para parecer móveis. Ficavam escondidos dentro de caixas de madeira escuras, porque tecnologia ainda era vista como algo que não combinava com a sala de estar.
Dieter Rams fez exatamente o contrário. Projetou uma tampa transparente de acrílico, deixando toda a mecânica à mostra. Para muitos, aquilo parecia um caixão de vidro.
Hoje, o SK4 está no acervo do MoMA. Mas, na época, ele parecia quase um erro.
O interessante é que Rams não estava tentando criar um ícone do design nem um objeto futurista. Ele estava incomodado com uma pergunta muito mais simples: Por que a tecnologia precisa fingir ser outra coisa para ser aceita dentro de casa?
É exatamente isso que mais me chama atenção quando conheço o trabalho de grandes designers.
Em comum, nenhum deles começou pela forma. O ponto de partida era um problema, uma inquietação ou um comportamento que merecia ser observado.
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Charles e Ray Eames e uma tala ortopédica |
Charles e Ray Eames chegaram a uma das cadeiras mais conhecidas do século XX por um caminho ainda menos provável.
Em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, foram contratados para resolver um problema da Marinha americana: as talas de perna usadas pelos soldados feridos eram pesadas, desconfortáveis e difíceis de produzir em grande escala.
O desafio era descobrir como moldar madeira em curvas complexas sem que ela rachasse.
Durante meses, transformaram o próprio apartamento em laboratório. Construíram máquinas improvisadas, erraram inúmeras vezes e desenvolveram uma técnica inédita para moldar compensado em curvas que resolvessem a questão das talas.
A guerra acabou, as talas deixaram de ser prioridade, mas o resultado daquela pesquisa permaneceu.
Anos depois, a mesma técnica seria aplicada às cadeiras que tornaram Charles e Ray Eames conhecidos no mundo inteiro.
Uma das cadeiras mais famosas da história talvez nunca tivesse existido se alguém não precisasse resolver, antes, um problema hospitalar.
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LCW (Lownge Cheair Wood), década de 1940 - Charles & Ray Eames |
Décadas depois, Naoto Fukasawa começou a prestar atenção em outra coisa.
Não em materiais, nem em tecnologia, mas em gestos.
Ele percebeu que passamos o dia fazendo movimentos que já não exigem nenhum esforço consciente. Procuramos um interruptor, seguramos uma sacola, abrimos uma porta, puxamos um cordão.
Ou seja, o corpo aprende e, depois, pára de pensar nesses movimentos que passam a ser automáticos.
Foi observando um gesto desses — puxar o cordão de um exaustor de cozinha — que Fukasawa desenhou um aparelho de som para a Muji.
O equipamento é um quadrado branco preso à parede.
Não há botão de ligar. Existe apenas um cordão que você puxa e a música começa a tocar.
Ninguém precisou perguntar como funcionava. O corpo já conhecia aquele gesto muito antes de o aparelho existir e sabia o que fazer.
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Wall Mounted CD Player, 1999 - Naoto Fuksawa para Muji |
À primeira vista, essas três histórias parecem não ter relação entre si. Um toca-discos, uma cadeira de design e um aparelho de som preso à parede.
Apesar das diferenças, existe algo em comum entre essas histórias: nenhum desses projetos nasceu porque alguém decidiu desenhar algo bonito. Todos nasceram porque alguém passou tempo suficiente olhando para um problema que quase ninguém mais estava olhando.
Rams observava o excesso, Charles e Ray Eames investigavam um limite técnico e Fukasawa observava comportamentos.
O desenho veio depois.
É por isso que o trabalho deles continua tão atual. Não porque tenham encontrado um estilo, mas porque desenvolveram maneiras muito próprias de enxergar problemas e construir soluções.
Quando pensamos em design, geralmente o que nos chama a atenção é a forma. A parte mais interessante, porém, quase nunca é essa. O fascinante é entender o processo e os critérios que levaram ao design final.
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O processo criativo dos Eameses - por Eames Offices |
Rams (Gary Hustwit, 2018)
O documentário mostra um Dieter Rams muito diferente do designer que costuma aparecer nos livros. Mais do que falar de formas, ele discute responsabilidade, consumo e o que significa continuar colocando novos produtos no mundo.
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The Films of Charles & Ray Games Se existe um lugar para entender como os Eames pensavam, talvez sejam seus filmes. Eles revelam um estúdio movido por curiosidade, experimentação e pela convicção de que diferentes disciplinas se complementam e são extremamente relevantes quando falamos de design. |
Without Thought, de Naoto Fukasawa
O livro apresenta uma ideia simples e poderosa: alguns dos melhores objetos são justamente aqueles que deixam de chamar atenção porque funcionam tão bem que parecem naturais. |
Transforme em algo novo aquilo que você não usa mais.
O processo é fácil, sem taxas e você pode iniciar a qualquer momento.
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