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MS Journal #42: Setembro 2026

 
 

O Gosto Muda de Ideia

 

Gosto é o que faz uma coisa nos atrair mais do que outra. Parece simples, até tentarmos entender por quê.

 

Rothko Room - Tate Modern, Londres (obra em destaque à direita: "Black on Marron", 1958)

 

Nem tão definido assim

 

Há coisas de que gostamos imediatamente. Outras precisam de algum tempo. Uma música que parecia estranha começa a fazer sentido depois de algumas vezes, uma cor que nunca escolheríamos passa a chamar nossa atenção, um móvel que adorávamos há dez anos pode, de repente, parecer datado. E há coisas que continuam nos agradando por décadas sem que saibamos explicar muito bem por quê.

 

Falamos de gosto como se fosse uma característica bastante definida de cada pessoa. “É meu gosto”, “não faz meu estilo”, “nunca gostei disso”. Mas basta olhar para o próprio passado para perceber que essa história é menos linear do que parece.

 

De onde, afinal, vem aquilo de que gostamos?

 

O gosto começa cedo

 

Bebês não chegam ao mundo completamente indiferentes. No paladar, por exemplo, recém-nascidos tendem a aceitar sabores doces e rejeitar os amargos. Há uma predisposição biológica ali, mas também uma enorme capacidade de aprendizado. O contato com diferentes sabores começa muito cedo e pode modificar preferências futuras.

 

Isso ainda está longe do que mais tarde chamaremos de gosto, mas nossas preferências já começam a se formar nessa combinação entre predisposições e experiências, que vai ficando mais complexa ao longo da vida.

 

Antes de sabermos explicar

 

                              Termas de Vals, Peter Zumthor, 1996 - um espaço para ser sentido antes de ser entendido

 

Nem sempre sabemos por que alguma coisa nos agrada. Geralmente a sensação vem antes da explicação.

 

Uma obra pode nos prender sem que saibamos dizer exatamente o que vimos nela; em um ambiente, podemos sentir conforto ou incômodo antes mesmo de reparar na luz ou nas proporções. O mesmo acontece quando uma música nos emociona sem que entendamos nada sobre sua construção.

 

Essas respostas não parecem inteiramente voluntárias. Não decidimos racionalmente o que vai nos emocionar ou causar estranhamento.

 

No século XVIII, Kant colocou o sentimento no centro de sua reflexão sobre gosto e beleza. Para ele, a experiência estética não nascia de uma regra capaz de determinar o que é bonito, mas de uma sensação de prazer ou desprazer. Podemos saber muito sobre aquilo que estamos vendo e, ainda assim, não controlar a reação que aquilo provoca em nós.

 

Entre o novo e o familiar

 

Essa resposta também pode mudar com o tempo.

 

Em 1968, o psicólogo Robert Zajonc descreveu o que ficou conhecido como mere-exposure effect: a repetição pode fazer com que algo passe a nos agradar mais simplesmente porque se tornou familiar. Pesquisas posteriores mostraram que existe um limite e que, depois de certo ponto, mais exposição pode começar a produzir o efeito contrário.

 

É fácil reconhecer isso na música. Uma canção que parece estranha na primeira vez vai ficando mais interessante à medida que se torna familiar. Mas, se começar a tocar em todos os lugares, talvez chegue o momento em que não queremos mais ouvi-la.

 

Uma Torre antes de ser a Torre Eiffel

 

Em 1887, enquanto a Torre Eiffel começava a ser construída, cerca de quarenta artistas, escritores, músicos e arquitetos franceses publicaram no jornal Le Temps um protesto contra ela. Entre eles estavam Guy de Maupassant, Alexandre Dumas filho e Charles Garnier, arquiteto da Ópera de Paris.

 

É tentador resumir a história dizendo que Paris odiou a Torre Eiffel e depois aprendeu a amá-la, mas não sabemos se foi assim. O que sabemos é que algumas figuras importantes da cultura francesa olharam para aquela enorme estrutura metálica e viram uma ameaça à beleza da cidade.

 

Para nós, é difícil entender essa repulsa. Aqueles artistas viram uma construção de 300 metros aparecer e alterar radicalmente uma paisagem que conheciam sem ela. Já para nós, mais de um século de fotografias, filmes, viagens e histórias fizeram da Torre um dos símbolos mais reconhecíveis de Paris e, indiscutivelmente, incorporada à imagem da cidade.

 

                  Torre Eiffel em construção, Louis-Émile Durandelle, novembro de 1888.

 

Gostamos sozinhos?

 

O mundo em que crescemos já vem cheio de referências. Antes mesmo de pensarmos conscientemente naquilo de que gostamos, algumas vêm de casa, outras dos amigos, dos lugares que frequentamos ou simplesmente da época em que vivemos.

 

E há momentos em que gosto e pertencimento ficam particularmente próximos. Música e roupa, por exemplo, podem funcionar como códigos de uma geração, uma cena ou um grupo. Basta pensar no hip-hop em Nova York no início dos anos 1980, no punk londrino ou no movimento hippie dos anos 60. Em cada um desses casos, havia uma estética que ultrapassava a música e aparecia também na maneira de se vestir, no cabelo, nas imagens e nos objetos.

 

Isso não quer dizer que todos dentro de um mesmo universo tenham as mesmas preferências. Irmãos criados na mesma casa podem desenvolver gostos muito diferentes. Também podemos rejeitar justamente aquilo que predomina ao nosso redor, usando nossas escolhas para marcar uma diferença.

 

Cenas do hip-hop em Nova York nos anos 1980, do punk londrino nos anos 1970 e de Woodstock, em 1969

 

Quando começamos a enxergar mais coisas

 

O repertório acrescenta outra camada. Pesquisadores já compararam pessoas com e sem formação em arte diante das mesmas obras e encontraram diferenças naquilo para que dirigiam sua atenção e também em suas preferências.

 

Em um desses estudos, pessoas sem formação preferiram pinturas figurativas às abstratas. Entre especialistas em história da arte, no entanto, o grau de abstração teve muito menos influência na avaliação.

 

Conhecer mais pode ampliar aquilo que somos capazes de perceber. Depois de provar muitos vinhos, por exemplo, começamos a distinguir características que antes talvez passassem despercebidas. Com mobiliário, podemos aprender a reconhecer materiais, técnicas e referências. Isso pode nos fazer apreciar algo que antes não entendíamos ou ficar mais exigentes com coisas das quais já gostávamos.

 

Ainda assim, duas pessoas com repertórios muito parecidos podem continuar preferindo coisas diferentes. 

 

O que a memória acrescenta

 

Algumas preferências carregam ainda algo que não está propriamente na coisa, mas na nossa história com ela.

 

Existe um fenômeno da memória autobiográfica chamado reminiscence bump. Quando adultos olham para trás, tendem a se lembrar de uma quantidade desproporcional de experiências vividas entre a adolescência e o início da vida adulta.

 

Uma pesquisa com 80 convidados do Desert Island Discs, programa da BBC que pergunta quais discos seus convidados levariam para uma ilha deserta, encontrou algo interessante. Metade das músicas escolhidas havia se tornado importante entre os 10 e os 30 anos. E, quando explicavam por que determinada música era importante, a razão mais frequente era sua ligação com uma pessoa, um período ou um lugar.

 

Nesse caso, o que nos agrada não está apenas na música, na receita ou no objeto. Está também nas associações que fomos construindo. Uma preferência pode carregar uma parte da nossa própria história, mesmo quando não percebemos isso conscientemente.

 

Afinal, de onde vem o gosto?

 

É difícil explicar completamente o gosto porque ele é formado por muitos elementos. Referências, experiências, repertório e memória influenciam nossas preferências ao longo da vida, e o gosto também muda à medida que nós mudamos.

 

Mesmo olhando para trás e reconhecendo muitas dessas influências, ainda não conseguimos explicar por completo por que uma música nos emociona e outra não, ou por que a mesma coisa pode provocar sensações tão diferentes em cada pessoa.

 

Mais sobre o assunto

 
 

Taste - The Secret Meaning of Things (Stephen Bayley)

Um livro sobre gosto que passa por design, arquitetura, moda, arte, comida e consumo para investigar por que escolhemos algumas coisas e rejeitamos outras. Bayley escreve como crítico de design, não como acadêmico, e trata o assunto com humor e provocação.

Objectified  (Gary Hustwit)
Um documentário sobre os objetos com que escolhemos viver e as decisões por trás de seu design. Dieter Rams, Naoto Fukasawa, Jonathan Ive, Hella Jongerius e outros designers aparecem no filme, mas a questão vai além do design: nossa relação com os objetos também passa por aquilo que escolhemos ter por perto.

Ways of Seeing (John Berger)
Criada por John Berger para a BBC em 1972 e depois transformada em livro, a série investiga como aquilo que sabemos e as convenções culturais interferem na maneira como olhamos para imagens e obras de arte. É curta, acessível e continua muito interessante mais de cinquenta anos depois.

 
 
 
 

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Enviado por Marina Schaffa
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