MS Journal #46: Outubro 2026 |
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Quem mora em São Paulo tem acompanhado, nos últimos anos, uma mudança que dá para ver da janela e sentir na calçada. Casas e sobrados vêm dando lugar a prédios cada vez mais altos, transformando a paisagem de bairros inteiros, e em muitas ruas até a quantidade de sol que chega à calçada já não é a mesma. Segundo estimativas do Secovi-SP divulgadas em junho, a cidade tinha, em meados do ano, cerca de 317 mil unidades residenciais em construção. Por trás dessa transformação existe uma questão que as grandes cidades enfrentam há muito tempo: como acomodar cada vez mais gente sem tirar das ruas e das casas a luz e o ar que tornam um lugar bom de viver?
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Casas e prédios em São Paulo. Foto: Fernando Stankuns, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons |
Em meados do século XIX, Barcelona enfrentou uma versão extrema dessa questão, e a resposta que buscou ajudou a criar uma nova maneira de pensar as cidades. Ela veio de um engenheiro catalão, Ildefons Cerdà, que morreu há 150 anos e é considerado um dos fundadores do urbanismo moderno. |
Naquela época, Barcelona já era uma cidade industrial, movida pelas fábricas têxteis, mas continuava cercada por muralhas. Desde o início do século XVIII, era tratada como praça militar, e as autoridades proibiam construir no terreno ao redor. Enquanto isso, as fábricas se multiplicavam dentro do perímetro antigo e atraíam cada vez mais trabalhadores vindos do campo. Sem poder crescer para fora, Barcelona cresceu para dentro. Jardins, pátios e porões foram ocupados, os prédios ganharam andares, e as famílias operárias passaram a se amontoar em cômodos pequenos e mal ventilados, numa cidade castigada por epidemias frequentes. As muralhas só começariam a ser derrubadas em 1854.
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Demolição das muralhas de Barcelona, c. 1855. Foto: Franck (François Marie Alexandre Gobinet de Villecholes), domínio público, via Wikimedia Commons |
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Foi nesse cenário que Cerdà entrou na história. Engenheiro de estradas, ele trabalhou para o governo até herdar a fortuna da família, o que lhe permitiu se dedicar inteiramente ao que o ocupava havia anos: entender como as cidades poderiam crescer sem sacrificar a vida de seus moradores.
Começou estudando a fundo a cidade que já existia. Desenhou uma planta detalhada de Barcelona e publicou uma pesquisa sobre a vida dos operários, constatando que boa parte do que ganhavam era consumida pelo aluguel de moradias apertadas e escuras. Antes de desenhar a cidade nova, quis entender como se vivia na antiga.
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Cerdà queria pensar a cidade a partir das condições de vida de seus moradores. Na mesma época, Paris passava pela grande reforma conduzida pelo barão Haussmann, que abria largos bulevares em meio à cidade antiga. Em Barcelona, a proposta era outra: projetar uma expansão inteira, com regras que garantissem boas condições de moradia em todos os quarteirões. E Cerdà acreditava que esse método poderia servir a outras cidades, não apenas à sua. |
Ildefons Cerdà, fotografado em Paris por André-Adolphe-Eugène Disdéri, e a página de rosto da Teoría general de la urbanización, publicada em Madri em 1867.
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Ao tentar explicar esse método, ele esbarrou num problema curioso: não existia uma palavra para o estudo da cidade como um todo. Cerdà inventou o termo urbanización e justificou a escolha assim: "Colocado diante da alternativa de inventar uma palavra ou de deixar de escrever sobre uma matéria que, à medida que fui aprofundando seu estudo, julguei mais útil à humanidade, preferi inventar e escrever a me calar." A palavra aparece em seus textos por volta de 1861 e dá título à Teoría general de la urbanización, publicada em 1867 e considerada uma das obras fundadoras do urbanismo moderno.
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Um plano feito para a luz
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Quando as muralhas caíram, abriu-se um enorme terreno vazio entre a cidade antiga e os povoados vizinhos. Cerdà propôs ocupá-lo com o Eixample, palavra catalã para ampliação, o bairro que hoje abriga o Passeig de Gràcia e alguns dos edifícios mais conhecidos de Gaudí, como a Casa Batlló e a Pedrera. A ideia era planejar essa extensão antes que ela fosse construída, para não repetir os erros da cidade velha. |
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O desenho lembrava um grande tabuleiro de quarteirões iguais, e a novidade estava na maneira como eles seriam ocupados. Nas primeiras versões do projeto, os prédios, com no máximo 16 metros de altura, ocupariam apenas dois lados de cada quarteirão, deixando os outros dois abertos e o interior livre para um jardim. Assim, cada casa teria janelas para a rua de um lado e para uma área verde do outro, com luz e ar dos dois lados.
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As ruas também seriam muito mais largas que as da cidade antiga, com pelo menos 20 metros, para deixar entrar luz e ar e para receber um movimento cada vez maior de pessoas e veículos. Pensando nesse movimento, Cerdà cortou as quinas dos quarteirões a 45 graus, dando mais visibilidade a quem chegava ao cruzamento e mais espaço para as carruagens manobrarem. Com as quatro esquinas cortadas, cada cruzamento se abre num pequeno octógono, onde hoje cabem mesas de café, motos estacionadas e gente parada conversando. Visto do alto, é esse padrão que torna o Eixample inconfundível.
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Quarteirões do Eixample em torno da Plaça de Tetuan, em Barcelona. Imagem: Google Earth, 2023 Fonte: captura própria no Google Earth, imagem de 25/6/2023.
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Dois planos para a mesma cidade
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Barcelona, porém, tinha outros planos. Em 1859, a prefeitura fez um concurso para escolher o projeto de expansão e declarou vencedor o arquiteto Antoni Rovira i Trias, que propunha grandes avenidas saindo da cidade antiga em direção aos povoados vizinhos, como raios. Ele inscreveu o projeto com um lema em francês que dizia, em tradução livre, que o traçado de uma cidade é obra do tempo, mais do que de um arquiteto. O plano de Cerdà seguia a lógica oposta: uma malha uniforme, sem centro e sem hierarquia, que para muitos barceloneses ignorava a cidade existente. Mas Cerdà tinha o apoio do governo central, e em 1860 um decreto real determinou que a expansão seguiria o plano dele. Barcelona recebeu a decisão como uma imposição de Madri, e os grandes proprietários de terra, que esperavam construir mais em cada terreno, ficaram contrariados.
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Na prática, a construção do Eixample ficou nas mãos de proprietários e construtores com interesses próprios, nem sempre compatíveis com as restrições de Cerdà. Com as revisões do plano e o afrouxamento das regras de construção, os prédios ganharam altura e passaram a ocupar os quatro lados dos quarteirões. Aos poucos, os jardins internos também foram sendo construídos. O traçado sobreviveu, com as ruas largas e as esquinas cortadas, mas o miolo verde que deveria levar luz e ar a todas as casas praticamente desapareceu. Cerdà não chegou a ver a maior parte disso; morreu em 1876.
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Quarteirões do Eixample em projeto de 1863. Nesta versão, feita pela Sociedad Fomento del Ensanche, que construía no bairro, os prédios já ocupam os quatro lados, mas o jardim central ainda existe. |
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É difícil não pensar em São Paulo diante dessa história. Quando uma cidade cresce depressa, é comum que a atenção se concentre em quanto se pode construir em cada terreno. O que Cerdà propôs, ainda no século XIX, foi começar pela qualidade de vida de quem vai morar ali: a luz que entra nas casas e chega às calçadas, o verde, os espaços abertos onde a vida do bairro acontece. São coisas que não aparecem na conta de quantos apartamentos cabem num lote, mas que fazem muita diferença no dia a dia de quem vive na cidade.
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Mais de um século depois, Barcelona começou a recuperar parte dos espaços que Cerdà havia imaginado. Em 1986, uma regra municipal passou a exigir que, sempre que um prédio do Eixample fosse reformado, o fundo do terreno ficasse livre de construções. Aos poucos, os miolos de quarteirão começaram a reaparecer, e entre 1987 e 2012 a cidade recuperou 48 deles para uso público. |
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Jardins de Clotilde Cerdà, no bairro de Fort Pienc, em Barcelona. Foto: Pere López Brosa, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons |
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Um deles fica no bairro de Fort Pienc. Quem passa pela calçada mal percebe, mas atrás das fachadas há um jardim com parquinho, bancos e árvores, cercado pelos fundos dos prédios ao redor. Neste ano, a prefeitura aprovou uma reforma para deixá-lo ainda mais verde.
O jardim leva o nome de Clotilde Cerdà, filha do engenheiro. Harpista prodígio desde criança, ela se apresentou com o nome artístico de Esmeralda Cervantes e defendeu o fim da escravidão e os direitos das mulheres. Cerdà morreu mais de um século antes de Barcelona começar a recuperar esses espaços. Hoje, um deles, com árvores, bancos e crianças brincando no lugar que ele havia reservado para a luz e o ar, tem o nome da filha dele.
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Story of cities #13: Barcelona's unloved planner invents science of urbanisation — The Guardian
Reportagem curta sobre Cerdà, a resistência de Barcelona ao seu plano e a criação da palavra urbanização.
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Playtime (Playtime: Tempo de Diversão) — Jacques Tati
Comédia quase sem diálogos em que Monsieur Hulot se perde numa Paris moderna de vidro e aço, onde todos os prédios parecem iguais. Disponível no NetMovies, no Looke e na Apple TV.
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Le città invisibili (As cidades invisíveis) — Italo Calvino
Marco Polo descreve ao imperador Kublai Khan cidades imaginárias, cada uma em poucas páginas. Um livro curto e poético que fala de cidades sem falar de urbanismo, publicado pela Companhia das Letras.
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